segunda-feira, 11 de junho de 2012

28) O roubo do avião NA AT-6 da EVAER

NA AT-6

Houve um momento, em pleno funcionamento da EVAER (Escola VARIG de Aeronáutica), em que. Alem dos aviões BT-15 que receberamos da FAB e que eram utilizados no treinamento dos alunos, em que ganhamos, surpreendentemente, um belo avião de treinamento avançado, um AT-6 do tipo que a FAB usava em sua escola, e que servira ao preparo de pilotos pelo mundo afora. Era um avião novinho, recém saído da fábrica que então existia no Brasil, e que se prestaria muito bem às nossas necessidades.

O avião ficava na rua, coberto com uma lona, pois não tínhamos lugar em hangares . Num sábado de bom tempo, eu estava em casa almoçando, quando me avisaram pelo telefone que alguém decolara com nosso AT-6 e estava fazendo vôos rasantes sobre a área do aeroporto, em atitudes perigosas, sem que se soubesse quem estava no avião. Fui imediatamente para o aeroporto, onde encontrei uma verdadeira multidão que acorrera ao local para ver que estava acontecendo. Nosso avião, realmente, voava a baixíssima altitude, fazendo perigosas curvas de grande inclinação, indo de um lado para o outro, não mostrando seu piloto qualquer intenção de pousar. Fiz contato com o comando da 5ª Zona Aérea, pedindo-lhes auxílio, pelo que mandaram outro avião semelhante acompanhar o nosso em suas evoluções, o piloto da FAB fazendo gestos para o outro para que pousasse. Sem resultado.

Havia um avião Super-Constellation da RG estacionado próximo aos principais hangares de empresa. O AT-6 passava às vezes rente ao Super, como se o piloto quisesse atingi-lo, sem que nós pudéssemos fazer qualquer coisa. Numa dessas ocasiões o AT-6 veio em vôo baixo em direção ao Super, quase o atingiu mas terminou chocando-se violentamente contra uma parede dos hangares, explodindo e incendiando-se. Corremos todos para o local, o fogo foi apagado com extintores, e ninguém tinha condições de identificar o corpo muito queimado do que fora o piloto do avião. Estávamos ali sem sabermos o que fazer, quando chegou um rapaz bem jovem, acompanhado de um de nossos vigias, que tinha chegado na Portaria da VARIG e pedido para falar com alguém responsável; O rapaz, muito emocionado, nos contou que o avião passara sobre a casa de seus pais em Canoas, onde viviam ele e seu irmão mais velho, e que jogara um bilhete envolto em parafusos e arame, que ele apanhara. No bilhete, que pudemos ler, o irmão dizia que iria suicidar-se, pedia perdão e despedia-se da família. Só aí ficamos sabendo de quem se tratava: Era um mecânico da EVAER, que fora despedido na véspera por ter adulterado fraudulentamente seu cartão-ponto para ganhar algumas poucas horas extras ilegais. Isso fora percebido por sua chefia, que o demitira na véspera. Ele arquitetara então um plano de vingança contra a VARIG, ao que parece, destruindo um de nossos preciosos Super Constellations, à custa da própria vida, o que não conseguira fazer, pois não era piloto e não soube controlar bem a direção do vôo.

Foi uma história triste, mas que serviu para que tomássemos algumas providências para evitar a repetição de coisa semelhante. Uma coisa curiosa em toda essa história é o fato de que esse rapaz nunca tivera qualquer treinamento de vôo em sua vida. Fora apenas um mecânico de categoria média, só sabendo fazer alguns consertos nos aviões. Nunca voara! Como então ele pôde decolar, recolher o trem de pouso do avião, trocar de tanques em vôo e voar rente ao chão, fazendo curvas de grande inclinação, e voar até Canoas, localizando a casa de seus pais, o que é um tanto difícil mesmo para quem tem experiência de vôo. Isso se constituiu num verdadeiro mistério, que nunca foi esclarecido!

3 comentários:

  1. Que história incrível! Obrigado pelo relato

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  2. Nobre Comandante da saudosa VARiG, temos um g no zapp, de nome ASTRA, que reune Ex-Especialistas da Aeronáutica e suas histórias; com sua permissão, vou repassar essa história para o grupo; são histórias, digamos, "extraoficiais" que não são contadas! Neste "País sem memória" onde a história é moldada pelos partidos políticos de plantão, narrativas assim são de suma importância! Parabéns!

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