sábado, 7 de julho de 2012

57) Automóveis “y otras cocitas más”


Certamente, eu pretendia só falar de aviação! Mas ocorrem-me outras coisas que marcaram época em minha memória e que sinto vontade de contar, mesmo que possam não ser de grande interesse.

Meu avô materno, João Rodrigues, era um gauchão dono de duas grandes estâncias na fronteira do Brasil com o Uruguai, uma no Município de Quaraí e outra no “Departamiento” de Artigas. Ele passou grande parte de sua vida residindo numa ou outra das estâncias, principalmente na do Uruguai, onde construiu uma residência muito confortável para a época e o lugar (no meio do campo, longe de qualquer lugar!), pois ostentava, inclusive, um banheiro completo com água encanada e tudo o mais. Isso porque ele era, apesar de homem do campo, instruído e muito progressista. Na estância do Uruguai ele tinha dois automóveis: um Chevrolet “Pavão” 1926 e um Ford “de bigodes” 1924. Quem guiava esses carros? Um “chaufeur”, é claro. A gasolina era comprada em latas de 20 litros, guardadas no galpão, e a partida dos carros era com manivelas. De vez em quando meu avô precisava fazer compras. Então ia num dos carros pelo meio do campo, pois não havia estrada, até a cidade de Artigas, onde embarcava no “ferrocarril” e ia a Montevidéo (onde tinha duas irmãs). Fazia então suas compras, tudo sempre da melhor qualidade, pois Montevidéo era pródiga em produtos importados da Europa. Tenho até hoje uma de suas bengalas, de ébano e com castão de prata lavrada, que certamente é de origem inglesa ou francesa.

Um dia, já meio idoso, meu avô resolveu mudar-se para Porto Alegre, pois as filhas precisavam estudar em bons colégios, e entregou a administração das estâncias ao único filho, formado em engenharia, mas também criado no campo. Comprou em POA uma bela casa, mas que não tinha banheiro. Mandou então transformar um dos quartos em banheiro, com todos os implementos, inclusive aquecedor d’água à gás (havia gás encanado na Av Independência), pia, banheira, espelhos e uma latrina com caixa de descarga (que se chamou por muito tempo em POA “patente”, pois o apetrecho era importado da Inglaterra e tinha escrito no lado de dentro a palavra “patent”). Logo em seguida o velho João comprou um carro Mercedes que foi um dos primeiros automóveis a transitar nas ruas de POA. Esse carro foi importado da Alemanha especialmente para ele, e tinha um motorista de origem alemã, com guarda-pó, chapéu, óculos e tudo o mais, que parecia ter vindo da Alemanha junto com o carro.

Esse carro tinha faróis a acetileno que tinham de ser acesos com fósforos antes da partida noturna (o que era muito raro). A buzina era uma corneta instalada no lado externo, à esquerda do motorista. Este viajava “na chuva”, pois não havia teto sobre sua cabeça. Havia porem um vidro grosso separando a cabine dos passageiros do motorista, e um tubo acústico pelo qual os passageiros se comunicavam com o mesmo. Na cabine traseira havia um banco para duas ou três pessoas e um pouco adiante duas cadeiras dobráveis. Havia também, na parede lateral, um vaso com flores e um conjunto de papel, envelope, caneta e tinteiro, para escreverem cartas! Eu, com seis ou sete anos de idade, maravilhava-me com essa maravilha da tecnologia, e quando saíamos fazia questão de sentar-me ao lado do motorista, para absorver avidamente com olhos e ouvidos tudo que aquele extraordinário profissional fazia. Esse Mercedes foi substituído por um Buick aberto, bem mais moderno e este, depois, foi trocado por um Hudson fechado, um belo carro que eu admirava muito. Algum tempo depois meu avô faleceu e a família vendeu o carro. Era, realmente, um homem que apreciava as coisas que não eram de seu tempo.


Meu pai, Frederico Bordini, não era muito ligado em automóveis, talvez porque fossem caros e porque as facilidades de crédito e financiamento naquela época não eram como hoje. Creio que praticamente só se negociavam veículos (poucos) com pagamento a vista.Os carros em geral eram de origem norte americana, grandes e caros, e contavam-se nos dedos os que os possuíam. Houve porem um momento em que o Governo Brasileiro negociou um tratado de comércio com a Alemanha, que estava em grande desenvolvimento industrial, pelo que começaram a chegar a nosso pais muitos veículos alemães, em geral de tamanho reduzido, populares, a preços inferiores aos já existentes de origem americana. Eram automóveis VW, DKW, ADLER, OPEL, e motocicletas DKW, ZUNDAPP, BMW. Meu pai então comprou um DKW modelo 1937 ou 1938 que tinha carroceria de madeira revestida de aço, talvez por influência dos filhos, pois como disse ele tinha uma certa aversão a automóveis, pelo menos até esse momento. Isso é um pouco estranho, pois ele tivera uma experiência automobilística anos antes, com um amigo que fora com ele ao porto de POA para buscar um automóvel Mercedes-Benz que o pai do tal amigo importara da Alemanha. Isso deve ter sido aí por 1905 ou 1906, quando em POA só trafegavam dois ou três desses veículos. Pois foram os dois rapazes ao Porto, sem ter a menor idéia de como manejar aquela máquina. Na chegada já constataram que faltava o combustível para o motor funcionar, e não havia gasolina por ali, nem em qualquer outro lugar a não ser nos depósitos da Esso, em latas de 20 litros. Resolveram, então, ir a uma farmácia e comprar alguns litros de álcool, pois o álcool era combustível, não era? E assim foi feito, e depois de muitas tentativas conseguiram fazer o motor funcionar e, aos corcovos, levar o carro para casa, a despeito do trânsito congestionado por carroças nas vias portoalegrenses. Mas afinal foi uma experiência automobilística, não foi? Deve ter sido, pelo menos, o primeiro automóvel a rodar com álcool no Brasil.

O DKW de meu pai foi um carrinho que prestou bons serviços à família. Foi com ele, inclusive, que eu fui ao Rio de Janeiro em 1940, transitando pela futura BR-116 que estava em obras. Atravessei boa parte do RGS e de Santa Catarina rodando por  estradas secundárias e enlameadas, com o valente DKW vencendo os difíceis caminhos com correntes colocadas prudentemente nas rodas dianteiras, pois sua tração era nas rodas da frente, o que era alta novidade por onde passasse. As pessoas riam-se e diziam:”Ele não sabe que tem de colocar as correntes nas rodas de trás!” Isso porque ninguem vira jamais um automóvel com tração dianteira. Certa vez o DKW serviu de ambulância: eu luxara o ombro esquerdo e precisava recorrer ao Pronto Socorro para colocar o braço no lugar. Como não tínhamos telefone em casa, não tinha como chamar uma ambulância, e assim meu pai decidiu levar-me no DKW até o hospital, que era bem longe. Era noite, e ele não costumava acender os faróis do carro. Ligava apenas as sinaleiras e por isso nada enxergava e passava por cima de tudo que houvesse pela frente. Eu segurava o braço contra o peito, pois cada solavanco produzia uma dor terrível. E assim fomos até o hospital, aos corcovos e sob dor cruciante, graças ao DKW.

Durante o ano de 1941 (eu passei todo esse ano no Rio) Porto Alegre foi vítima de uma terrível enchente que transformou por várias semanas as partes baixas da cidade num imenso e profundo lago. O Aeroporto São João (e as instalações da VARIG) estavam sob 2 a 3 metros de água. Todo o tráfego aéreo no aeroporto cessou, exceto o aviãozinho Junkers Júnior (“a xúnior”, como o chamavam os alemães, pois para eles avião era “die machine”, ou seja, algo feminino). Acontece que “a xúnior” tinha um par de flutuadores que podiam ser instalados em lugar das rodas, e isso foi feito, de forma que o pequeno hidro era o único avião a transportar correio entre POA e Rio Grande. Mas havia um problema: “a xúnior” não tinha lemes nos flutuadores e por isso era quase impossível controlá-lo dentro d’água, especialmente quando havia vento, e só havia um piloto capaz de fazê-lo, que era o Cmte. Greiss, com sua experiência e habilidade com hidro-aviões. Assim, Greiss era o “dono” da situação.

Voltando ao DKW: Pois meu pai havia levado o carrinho para uma oficina que havia na rua Voluntários da Pátria, num local próximo à margem do Guaíba, que ficara completamente alagado, de sorte que o pobre DKW ficou totalmente submerso durante o longo período da enchente. Quando as águas baixaram, o valente carrinho fez funcionar seu motor e dali saiu por seus próprios meios, voltando para casa. Porem aquele “banho” inesperado e indesejado teve seu efeito: tudo começou a apodrecer e a cair. Caiu uma porta e meu pai andava sem ela; depois caiu a outra e ele continuou a andar sem portas, e assim foi com os faróis, o estofamento e os paralamas. A chave de ignição era uma chave-de-fenda, a buzina um fio descapado que se fazia roçar no metal. O banco do motorista passou a ser um caixote de querosene. Enfim: o carro foi desaparecendo aos poucos. E como na época se cozinhava com lenha e eram necessários gravetos para acender o fogão, minha mãe pedia esse recurso a meu pai e ele simplesmente ia lá fora, sacudia o DKW (ele era forte) e juntava os gravetos da carroceria apodrecida do ex-automóvel que haviam caído no chão, e os levava para minha mão acender o fogo. O que foi feito desse DKW? Não sei! Ele simplesmente desapareceu. Meu pai chegou a possuir mais tarde um Austin e tempos depois um Ford Corcel. Já estava, porem, bastante idoso e parou de dirigir.


Ainda sobre automóveis: Tive um grande e saudoso amigo, que acompanhou-me por muitos anos em minha carreira aviatória, desde nossos primeiros passos na antiga VAE. Ele se chamava Lili Lucas Souza Pinto, e foi Comandante de praticamente todos os tipos de aviões que a VARIG teve. Muito amigo e muito competente. Pois certa época dos velhos tempos ele e eu trabalhávamos juntos na antiga Diretoria do Ensino da RG. Ambos morávamos no bairro Petrópolis de Porto Alegre. Ele possuía um velho Opel Olympia de antes da Guerra, e eu não tinha carro. Assim, ele passava defronte à minha casa e me dava uma carona até o trabalho. Só que minha rua era uma descida e o carro não tinha freios. Então Lili chegava na esquina e começava a buzinar para chamar minha atenção, pois não podia parar o carro. Eu tinha que correr e embarcar com o carro andando, saltando para dentro do mesmo. Às vezes a velocidade era maior que ele conseguia engrenado em segunda marcha, e nesse caso ele se aproximava da calçada e fazia com que as rodas da direita raspassem no cordão da calçada, com o que a velocidade era reduzida. E assim íamos até o aeroporto, Lili usando de todos os truques que sabia para reduzir a velocidade ou parar o carro. Acho que o velho Opel não tinha mais condições de conserto, e por isso estava sempre sem freios e outras coisas mais.

Um comentário:

  1. Cmte. Rubens, entro todos os dias em seu blog esperando sempre as suas histórias. Obrigado por compartilhar !

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